É terça-feira / e a feira da ladra / abre hoje às cinco / da madrugada

E a rapariga / desce a escada quatro a quatro / vai vender mágoas / ao desbarato / vai vender / juras falsas / amargura / ilusões / trapos e cacos e contradições

É terça-feira / e das cinzas talvez / amanhã que é quarta-feira / haja fogo outra vez / o coração é incapaz de dizer / “tanto faz” / parte p´ra guerra / com os olhos na paz

É terça-feira / e a feira da ladra / quase transborda / de abarrotada

E a rapariga / vende tudo o que trazia / troca a tristeza / pela alegria

E todos querem / regateiam / amarguras / ilusões / trapos e cacos e contradições

É terça-feira / e das cinzas talvez / amanhã que é quarta-feira / haja fogo outra vez / o coração é incapaz de dizer / “tanto faz” / parte p´ra guerra / com os olhos na paz

É terça-feira / e a feira da ladra / fica enfim quieta / e abandonada / e a rapariga / deixou no chão um lamento / que se ergue e gira / e roda com o vento / e rodopia / e navega / e joga à cabra-cega / é de nós todos / e a ninguém se entrega

É terça-feira / e das cinzas talvez / amanhã que é quarta-feira / haja fogo outra vez / o coração é incapaz de dizer / “tanto faz” / parte p´ra guerra / com os olhos na paz

 

ES MARTES

Es martes / y la Feira da Ladra (1) / abre hoy a las cinco / de la mañana

Y la muchacha / baja los escalones de cuatro en cuatro / va a vender tristezas / por una ganga / va a vender / juramentos falsos / amargura / ilusiones / trapos y trastos y contradicciones

Es martes / y de las cenizas, tal vez, / mañana que es miércoles / brote fuego otra vez / el corazón no es capaz de decir / “da igual” / se marcha a la guerra / con los ojos en la paz

Es martes / y la Feira da Ladra / ya casi rebosa / de abarrotada

Y la muchacha / vende todo lo que traía / cambia la tristeza / por alegría

Y todos quieren / regatean / amarguras / ilusiones / trapos y trastos y contradicciones

Es martes / y de las cenizas, tal vez, / mañana que es miércoles / brote fuego otra vez / el corazón no es capaz de decir / “da igual” / se marcha a la guerra / con los ojos en la paz

Es martes / y la Feira da Ladra / se queda al fin quieta / y abandonada / y la muchacha / deja en el suelo un lamento / que se levanta y gira / y rueda con el viento / y da vueltas / y navega / y juega a la gallina ciega / es de todos nosotros / y a ninguno se entrega

Es martes / y de las cenizas, tal vez, / mañana que es miércoles / brote fuego otra vez / el corazón no es capaz de decir / “da igual” / se marcha a la guerra / con los ojos en la paz

(1) La Feira da Ladra es un típico rastro lisboeta .

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